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São Paulo,
01 de fevereiro de 2003. Rememberance of
watershed é uma pintura sobre a perda da inocência, a passagem
para a vida adulta. É um momento de dor que leva ao crescimento.
Mas é um processo individual, que se vive sozinho. |
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| Com
a outra mão, no entanto, ela segura firmemente as flores em seu
peito, como algo que lhe é caro. Enquanto faz a ação de molhar ou jogar fora partes das flores, ela chora. Chora porque a consciência é um processo doloroso. A dor faz parte da vida. Não pense na dor masoquista. Não é disso que estou falando. Falo da memória da vida. É a dor do nascimento e morte. A dor da transformação. A menina-mulher está cheia de vida. É a imagem que mais cores possui. A cor, para mim, neste quadro é a vida. É muito importante pensar na mancha vermelha que sai de sua saia e começa a escorrer. Ela ainda não chegou na água, mas via chegar. O tempo é implacável. A água do lago está aqui como o inconsciente. É nele que ela lava suas memórias, clareando-as. Tudo parece morto e apagado na pintura, exceto a figura central. Isso porque a divisão de águas está acontecendo na consciência dela. É um trabalho que fala da tomada de consciência sobre a importância da memória, da vida, de si. E como tudo isso se reflete no crescimento pessoal. A chuva para mim é: a limpeza, a condensação, o movimento forte. A natureza se manifestando em sintonia com a personagem, como nas metáforas shakespeareanas. Acho um trabalho mais surreal do que expressionista, porque fala de um processo de consciência que envolve também o corpo: a mancha vermelha ao lado vestido. Mas esta questão eu deixo para os teóricos. As águas estão divididas no quadro e pouco se misturam. O lago (inconsciente) está calmo. As lágrimas escorrem suavemente. A chuva cai com força. A mancha é um líquido denso e pesado. Remeberance of watershed é isso: memória do dia em que tudo se transforma. Os fatos são sempre os mesmos, mas a consciência, o significado, jamais serão os mesmos. As águas estão divididas para sempre. Assim é a vida. |
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| Nota sobre o artist's book | |||||
Durante o processo de criação no atelier costumo ler outros livros, olhar a cor do céu lá fora, fazer pequenos desenhos, rascunhos de idéias que vão ganhando forma.Muitas vezes estas idéias são pensamentos extensos, que se repetem. Então comecei a registrar, como num diário aleatório, com grandes espaços vazios (só escrevo quando realmente me parece importante).Também durante o processo de trabalho com a gravura e a pintura à óleo (de demandam tempo de espera para ação de ácidos e secantes ou para secagem natural da tinta) , vou repensando a imagem, amadurecendo a idéia, questionando. Faço novos rascunhos, escrevo um pouco mais e o trabalho vai fluindo.Sou esforçado, mas também inconstante. Não sou metódico. Trabalho apenas quando é vital, então posso ficar dias seguidos trabalhando um assunto.No mundo contemporâneo
os assuntos se desgastam muito rapidamente. É preciso ter coragem
de enfrentá-los com profundidade. O registro no artist's book
tem me auxiliado nesta tarefa. É um registro muito pessoa e particular.
Muitos podem discordar das idéias. Tudo bem. Não quero
ser dono de verdade nenhuma, só estou atrás delas.
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